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Alma de Lua

Gosto de ti com esse teu olhar de suspeita, gosto da tua voz, do tom de ironia quando me dizes “eu te amo”. Sem me arrepender de qualquer instante, gosto de ti, dessa tua alma de lua: nova, crescente, cheia, minguante.

Exílio

Para agradar meu coração chove toda essa noite. Primavera sem estrelas inunda o jardim. Aos telhados sobe o perfume do manacá. Quando chove tudo se torna exílio.

Branco Amor

Para onde vai o vento vai branca cortina gravita grávida branca lua branco linho acolhe margaridas brancas branco tecido sorve branco licor branca nuca submissa acata brancos caminhos branca pele oleosa exalta lavanda leitosa língua lança fere sangra ardilosa vulva uiva gane boca voraz sorve turvo gesso branco outono denuncia branca noite branco amor em desalinho branco sopro sopra açoita tece sacia.

Esta Capa de Livro

Diz-me que o seu amor é como esta capa de livro em duas cores dividida sobre papel grosso e liso, um lado branco, outro negro, nuvens aladas sobrepostas o nome do autor autopsiado: Albert cá Camus lá. Diz-me que o seu amor é como esta capa de livro, consentindo ou recusando estamos em desabrigo. À porta da livraria que se fecha seguimos a capa do livro: o Avesso e o Direito, qual parte alcançar?

Dança

Vago o ritmo, frouxo o passo, nem dois pra lá, nem dois pra lugar algum. Sob a ameaça da solidão, em abandono, dançavam sem consentimento, sem arrependimento. A música vinha do dia anterior, de um antigo abril, de uma vaga dor e necessidade. Luar não havia.

Cais

Gostaria de sair contigo pela beira do cais, mãos dadas, despreocupadamente, apreciar a tarde, as formas dos navios, as cores do dia, as palavras mais simples. (Vez e outra um silêncio). Gostaria de contigo repetir os gestos, chutar as pedra se vê-las cair ao mar. Gritar seu nome, chamando a atenção do vento.

Dados Biográficos

Marien Calixte nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 20/10/1936, filho de Marien Calixte e Euthália Fogos Marien. Fez seus estudos na Academia de Comércio de Vitória, Colégio São Vicente de Paulo e Escola Comercial Domingos Martins. Desenvolveu sua atividade jornalística no Espírito Santo, onde está radicado desde os dez anos de idade. É considerado o mais versátil multimídia do Estado. Jornalista, radialista, escritor, pintor, especialista em jazz e produtor cultural. Também contista, é um dos pioneiros da ficção científica no Estado, com livro editado na área. Foi diretor de redação dos principais jornais de Vitória. Também correspondente do Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Visão, O Jornal, Veja, Portos e Navios. Criou em 1058, na Rádio Espírito Santo, o programa “O Som do Jazz”, que ainda continua no ar, recordista brasileiro. Sobre sua poesia, Carlos Nejar disse o seguinte: "A arte de haikai de Marien Calixte junta-se à tradição do Oriente, que tem mestres da altura de Bashô." Per...

Carla Bley em Vitória

Carla Bley tinha 20 anos de idade quando ouviu pela primeira vez João Gilberto e Antonio Carlos Jobim. Aos 72 anos confessa seu encantamento pela música brasileira, e acentua essa emoção afirmando que o mundo desaba de paixão pela MPB. A pianista e compositora Carla Bley terá a oportunidade de provar isso ao se apresentar para o público capixaba no próximo dia 25, na primeira das três noites do Tim Festival. A pianista norte-americana, nascida na Califórnia, exibe um alto e confiável conceito profissional. Sua múisca não é um produto de fácil digestão, alinhada nas modernas concepções de Lennie Tristano a Bill Evans. Carla Bley viaja em experiências que identificam nela a busca do novo, inspirando-se no free jazz apimentado de rock casado com o pop. Críticos de berço ortodoxo excluem sua inventiva, enquanto noutra face ela se impõe pelo estilo próprio. Carla diz que só faz o que quer e no que acredita. A pianista derrama-se de amores pela música brasileira, que ela, agora, conhece bem...

A mágica presença de Sinatra

Sem ter sido, essencialmente, um cantor de jazz, Frank Sinatra era o preferido dos músicos de jazz. Costumava dizer que para se inspirar ouvia Billie Holiday, Sarah Vaughan e Louis Armstrong. Afirmava que com Billie passou a valorizar cada palavra do letrista, habitualmente esquecido pelos intérpretes. Ouvindo Sarah, ele aprendeu a colocar adequadamente o seu poderoso e invejável timbre de voz. Munido de sorte, The Voice trabalhou com os maestros Tommy Dosey e Axel Sthordal, responsáveis pelos sensíveis e belíssimos arranjos das gravações de Sinatra dos anos 40.Isto é conversa para colecionador. É pequena, porém, expressiva, a discografia de Sinatra no jazz. Ele gravou com Ella Fitzgerald, Count Bassie, Duke Elllington, Ray Norvo e Billy May, Sinatra confessava abertamente sua admiração pelas vozes de Jonhny Hartman,Nat King Cole, Bing Crosby e Tony Bennet, mas nenhum destes teve o privilégio de gravar um disco com ele, exceção que The Voice concedeu a Rosemary Clooney e Ella Fitzger...

As influências do Jazz

A espontaneidade do Jazz expandiu-se em inúmeras manifestações culturais. A música erudita e a música popular, a literatura, a dança, as artes plásticas, o cinema, o teatro, a ópera, a moda , a culinária, etc ... A música democrática É natural que tanto a música popular quanto a erudita recebessem o maior impacto dessa influência. Realçado o fato de que no Novo Mundo a melodia e o ritmo da África encontraram um amplo e confortável berço para o seu entrelaçamento com a harmonia européia, produzindo formas musicais distintas a partir desse entendimento. Culpado disso foi o blues, que se tornara a linguagem musical mais fluente dos negros. Nesse contexto, reserve-se ao piano uma poderosa presença. O piano representava o papel de objeto de desejo e de maior prestígio nas residências nos salões alegres e sociais da América. "Um símbolo de respeitabilidade e superioridade cultural", como afirma o músico e escitor Yehudi Menuhim em "A Música do Homem". O piano transportou ...

O Jazz decoupé de Matisse

Ele é considerado um dos grandes mestres na utilização das cores. O pintor francês Henri Matisse (1869-1954) lembra Debussy e seu Prélude : simplifica a pintura, tornando-a plana, sem profundidade, mas intensamente comprometida com as cores. Sua luz é de tal maneira intensa que o seu médico recomendou trabalhar utilizando óculos escuros. Matisse adotou uma técnica à qual denominou papier découpe (papel recortado). Projetou e pintou figuras, recortou e as colou em pranchas. Começou com La Danse e La Musique e fechou esse círculo de papel e tesoura com um álbum contendo 23 pranchas, num total de 250 exemplares numerados e autografados pelo artista. O álbum chama-se Jazz . Jazz é um trabalho artesanal de Matisse. O tema ele escolheu sob a explicação de que jazz é uma música artesanal e assim deveria ser reproduzida. As pranchas mostram figuras humanas, desenhos e estrelas, asas, animais, figuras lembrando plantas do fundo do mar. Enfim, um universo muito amplo para a imaginação d...

Cinema e Jazz: o som faz história

Ao final da década de 20, do século 20, o cinema era um sucesso mudo. Fora das salas de projeção , os sons do jazz entusiasmavam as pessoas nas ruas, bares, restaurantes, teatros, salões de jogos. Em 1927, Jerome Kern - um dos cinco maiores compositores populares dos EUA - leva à Broadway sua obra-prima Show Boat , texto e música são inspirados no cenário natural de Nova Orleans . O espetáculo de Kern reunia um magnífico conjunto de canções inesquecíveis: Why do I Love You , Make Believe , Bill , Can ´t Help Lovin ´ Dat Man e Old Man River , todas celebradas por vozes e instrumentalistas famosos. Nesse mesmo momento, o Cotton Club , no Harlem , recebia a orquestra de Duke Ellington . Criava-se a Columbia Broadcasting Systen , Carl Sandburg lançava The American Songbag e a Biblioteca do Congresso dos EUA iniciava seu célebre "Arquivo da Canção Folclórica Americana", no qual o jazz se tornaria parte fundamental. Em março deste mesmo ano é criada a Academia...

Oleari marca presença no aniversário de Marien

Marien Calixte: O Som do Jazz

Marien Calixte, em entrevista exclusiva para o informativo da FCAA da UFES. FCAA - Como surgiu "O Som do Jazz"? MC - Em 1956, havia um programa de cinema na Rádio Espírito Santo sob o comando de José Américo Vidigal, que havia trabalhado na “Voz da América”, levado ao ar diretamente dos Estados Unidos. O programa dele tinha 12 minutos e ele sugeriu-me usar dois minutos com músicas de sucesso da época, em que dominavam os filmes musicais. Comecei a divulgar músicas de filmes estrelados por Fred Astaire, Frank Sinatra e outros. Daí minha participação evoluiu para o jazz. José Américo foi para o Rio e eu fiquei com seu espaço. Dentro do programa que se chamava “Cinelândia Capixaba”, entrou o “Som do Jazz” que tocava uma faixa de música. O programa foi progredindo e passou a ser todo musical, com três edições semanais, ou seja, as segundas, quartas e sextas-feiras. FCAA - De onde veio o nome do programa? MC - Em 1955, foi lançado um LP da Colúmbia - gravadora que depois passo...

A Capa do Livro

Um conto de Marien Calixte Extraído do livro Contos Desiguais A estante os separa. Olham os títulos disponíveis. Seguem o ritmo da tarde de agosto, que se esvai len­tamente. A mão direita dele toca os dorsos dos livros até chegar à extremidade da estante. Do outro lado, ela aciona a mão esquerda. Segue os livros num ges­to idêntico ao do cliente que se encontra do outro lado da estante. Como se fora um bale de marionetes, as mãos deles retornam ao ponto inicial, no centro da es­tante. Retiram o mesmo livro: O Avesso e o Direito. Como se houvessem combinado, seguram o livro ad­mirando a capa. A curiosidade dela é mais ágil, logo folheia o livro de Albert Camus. Ele retira a sobre-capa e se detém na comparação com a capa interna prote­gida. Os movimentos dele despertam o interesse dela. Transfere sua atenção para o outro lado da estante e ri da coincidência. O cliente do outro lado da estante escolhera o mesmo livro que ela. Discretamente avalia que tipo de leitor será...